quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Em um certo apagão


Fui ao barbeiro. Não para fazer a barba, pois os pêlos que se alastraram em meu rosto depois de crescido eram ralos, indignos de receber uma definição formal, mas para dar um trato na cabeleira encaracolada, que já chegava à nuca e em dias de calor me deixava enervado.
Antes de entrar no salão, a cabeça encheu- se de lembranças. Foi um velho de sardas escuras que aparou ali meus cabelos nos primeiros anos. Tempos passaram; troquei de casa, de rua, de bairro, mas voltei à mesma casa, a mesma rua e ao mesmo bairro. Não sabia se o velho permanecera ali por tantos anos e sem perder tempo aliei minha necessidade à curiosidade nostálgica e abri a porta de vidro deslizante.
Deparei-me com um ambiente abafado e escuro para as onze da manhã, vi à esquerda uma cadeira giratória posicionada em frente ao espelho, pendurado numa parede amarelada cheia de marcas de infiltração. Não me recordei de detalhe algum naquele espaço, senti um odor espesso impregnado enquanto procurava a imagem do velho barbeiro.
Ouvi uma tosse pigarrenta. No fundo do salão, de alpercatas pretas, calça branca e camisa de flanela, o velho lia um jornal. Fiz um ruído com a garganta e disse bom dia. O jornal foi posto de lado, a lâmpada acesa e os olhos apagados fixados em mim. “Olá, eu queria aparar o cabelo, aqui dos lados.” Sem palavras ele descruzou as pernas, levantou-se, pegou a toalha e apontou para a cadeira giratória. Sentei-me sem questionar, vi que os sulcos intermináveis de sua fronte a bochechas eram agora mais fundos do que no meu tempo de menino, assim como mais escuras e opacas as sardas de seu nariz.
Repeti algumas vezes como eu queria que meu cabelo fosse aparado. O velho não tinha interesse, nem sequer ouvia enquanto ajeitava a altura da cadeira, abria e fechava gavetas, conferia tesouras, navalhas e lâminas. Envolveu meu pescoço com a toalha e deu o último toque na cadeira. Após outra tosse crua, pegou do bolso da camisa um cigarro, da calça um isqueiro e com prazer começou a fumar às baforadas. Meu ar de espanto não o surpreendeu e para o velho não importava a opinião alheia, ali era o seu espaço, uma decadência original tomara conta de tudo nos anos recentes e caso eu quisesse ter meu cabelo aparado teria de ser à maneira dele, sem contrariá-lo
A aura sinistra do velho barbeiro se ampliou assim que pegou a tesoura. O silvo fino que ela fazia em suas mãos logo remeteu minha mente as imagens de assassinos em série, personagens egocêntricos e insanos, filme noir, num misto quase agradável de assombro e morbidez.
Com um pequeno pente afastou algumas mechas paras os lados, olhou como se em minha cabeça estivesse um ninho de pombos, tossiu outra vez com a mão cobrindo a boca, deu mais uma sorvida fervorosa no filtro e iniciou seu trabalho. Da direita para a esquerda, contornando toda a minha cabeça, o velho saiu picotando aos bocados os meus cabelos pretos. Não se contentava, parecia querer deixar peladas as áreas que rodeavam minhas orelhas. Juntei as sobrancelhas com um semblante de ira agoniada, sem poder me mexer e no instante em que me preparava para detê-lo, sua tesoura se aquietou. Em rápidos minutos passou a navalha no limite dos meus cabelos para finalizar o corte. Jogou a bituca no canto do salão e com movimentos ensaiados retirou a toalha do meu pescoço. Apalpei devagar as áreas onde agora os cabelos eram ausentes, pelo espelho ele ergueu o queixo para mim, a cara fechada, questionando minha reação ao resultado. “Está bom, bom... Quanto é mesmo?” Ele já não estava por perto, voltara a mexer nos pentes, tesouras e cabelos espalhados pelo chão, ajeitando tudo com empenho. Olhei para a placa na porta de vidro: ela marcava dez ao contrário. Peguei o dinheiro da carteira e deixei em cima da gaveta menor. Dirigi-me até a porta cheio de arrependimento, mas mesmo assim insisti
Foto por Thiago Beleza
O pequeno posto de saúde do bairro estava movimentado naquela manhã de sábado. Dona Eleonora chegou à recepção com Frederico e estava ansiosa com a nova experiência, o primeiro filho até então, só havia tomado as tranquilas gotinhas. Frederico, com a mão direita presa à mãe, estava como de costume aéreo, girando com a outra mão o pequeno Power Ranger articulado. Imitava sons de explosão e golpes mortais durante todo o tempo, o que deixava dona Eleonora levemente irritada, trazendo-o de minuto em minuto junto a seu corpo com discretos puxões tensos.
Frederico não conseguiu ver o rosto da moça que disse bom dia a sua mãe atrás do balcão, sabia que era moça, pois a voz assemelhava-se a de sua tia Ester: encorpada, delicada e entusiasmada. Antes de abrir a bolsa para pegar alguns documentos, dona Eleonora agachou-se na altura do filho, olhou fundo em seus olhos acastanhados e sentenciou: “Comporte-se!”. O sorriso de canto de boca do pequeno parecia negar o cumprimento da ordem. Enquanto os papéis eram conferidos sob uma conversa de amenidades: o tempo quente, a semana corrida, a chegada da páscoa, Frederico voltou ao pequeno mundo do herói naquela ante-sala morna. No “terceiro giro mortal que derrotava o inimigo astuto do planeta Terra”, Frederico parou em frente ao mural na parede curioso com a figura estampada. Era uma foto de uma bonita barriga, sendo enlaçada por duas mãos sem revelar a quem pertenciam: para ele parecia ser de um homem, devido aos pelos nos braços como os de seu pai, e de uma mulher, pela pulseira de um rosa bem clarinho. Ao ver diversas letras sem significado, perguntou à mãe cutucando seu braço: “Que isso?”. Dona Eleonora, pensou por alguns instantes, queria ser simples e esclarecedora na resposta, mas não encontrava a linguagem certa para isso. Uma gestante? Uma mamãe com um bebê ainda na barriga? Um casal esperando um filho?! Nenhuma dessas alternativas parecia poder sanar a dúvida do pequeno Frederico. Olhando o boneco na mão do filho, teve um estalo seguido de uma vergonha absurda, coisa de mãe inexperiente: “É uma nave espacial querido, devem estar lançando um brinquedo novo.” A moça da recepção abafou com as mãos uma risada alta, que fez dona Eleonora corar. Frederico com cara de espanto, também riu sem saber direito a razão.
Mãe e filho seguiram pelo estreito corredor até chegar numa sala movimentada. Um cheiro nauseante pairava no ambiente, uma mistura de álcool, produtos de limpeza e mofo. Mulheres de branco circulavam pelo corredor, nas paredes outros cartazes de alerta sobre doenças, tratamentos e datas especiais. Enquanto guardava o restante dos papéis na bolsa, dona Eleonora acomodou o filho em seu colo e deu a ele um cartão de papel verde com marca de carimbos. Frederico ajudou a mãe meio desatento, entretido com o desenho animado que passava na televisão do móvel a sua frente.
Em pouco tempo Frederico já não prestava atenção nos personagens e menos ainda no seu pequeno boneco. Estava com calor, queria ir embora. A sala enchera rapidamente e ele não sabia o que pensar sobre os constantes choros e gemidos vindos de toda parte. “Vamos pra casa mamãe?” – pediu tristonho, apertando a sua cintura.
Enquanto ela se acomodava e tranquilizava seu pequeno, o doutor preenchia uma ficha e carimbava o cartão. Pegou a seringa, a agulha e a pequena ampola. Apontou contra a luz e sugou todo o liquido do vidrinho. Abaixou a seringa na altura na barriga e testou a saída da agulha, espirrando algumas gotas amareladas.
Dona Eleonora nunca suportou ver o filho chorar, fazia de tudo para vê-lo satisfeito. Entregava-lhe a sobremesa antes da refeição, comprava os brinquedos que o deixavam impressionado a cada semana, deixava-o assistir os dvds do Barney até mais tarde, permitia que ficasse sem comer os legumes do prato e até dormir sem tomar banho em alguns dias na semana. Era sempre uma batalha que ela perdia. E neste dia sentia que estava trapaceando com o filho, sairia vitoriosa da batalha inconsciente, mas para ela era uma vitória covarde, iria fazer seu filho chorar sem dar a ele uma chance de escolha.
Frederico, de pé no colo da mãe, olhava pela janela as pombas que pousavam no beiral do lado de fora, os pequenos dedos apontavam várias delas e ele alegre, ensaiava uma contagem: “Uma, duas, quatro, três...” Enquanto o médico se aproximava, Dona Eleonora quis impedi-lo por um instante, não queria maltratar seu pequeno. Ao perceber a aflição da mãe, o doutor disse que ficasse calma, não aconteceria nada de mal ao seu filho, pelo contrário era para a saúde dele. Assim que o doutor abaixou-se, Dona Eleonora apontou para árvore alta do outro lado da rua: “Olha lá querido, outros passarinhos.” Quando disse isso, viu o rosto do filho se contorcer, uma uma face desfiguarada surgiu, uma careta horrenda de choro seguida de um grito dolorido. Ela o abraçou forte contra o peito, tentou abafar seu choro com as mãos e o balançou no colo com desespero. O médico que não devia ter filhos acariciou o pequeno Frederico um pouco triste, era seu ofício e o menino soluçava. “Quer dar um pouco de água à ele” – perguntou meio sem ação. “Acho que não precisa, ele já está se acalmando” – respondeu dona Eleonora. O menino não parava de chorar e ao voltar a sua mesa para pegar o papel do pequeno Frederico, o doutor também viu algumas lágrimas deslizarem dos olhos da mãe.
Ela agradeceu e se levantou para voltar pra casa, o coração batendo acelerado, o peito do menino encostado ao seu, quando Frederico choramingou: “Era injeção mamãe?” Dona Eleonora abraçou forte o filho e não respondeu.
Às vezes somos como ventilador empoeirado. É, um ventilador empoeirado. Nesses dias de intenso calor parei por alguns instantes, na ânsia de encontrar significado para algumas de minhas preocupações e observei o velho ventilador de casa. Robusto, potente e antigo, nos tempos de calor ele fica estrategicamente localizado no canto da sala. Quando já não suportamos o ambiente, suas hélices giram na maior velocidade possível, produzindo um quase irritante zumbido agudo. O movimento de cento e oitenta graus é manso e incessante. Essa frequência, claramente altera a temperatura do ambiente; o ar parado, sufocante e caótico passa a se movimentar numa dança veloz pelos quatro cantos, fazendo a respiração fluir com facilidade e o suor secar no corpo. Mas, mesmo afastando a monotonia do tempo, mesmo lançando as células mortes acumuladas nas superfícies pelos ares, o velho e decente ventilador fica empoeirado. Dia após dia debaixo ou dentro dos exagerados graus do verão, no canto da sala, no alto de sua eficiência como ventilador, ele faz sempre os mesmos movimentos e permanece em si, empoeirado. Não pára, não acelera, não cai, não ventila a si próprio, não queima... Permanece ali, em cento em oitenta graus durante todo o dia.

Caminhava com calma pela calçada limpa em paralelo ao trilho do trem, que seguia em extensa reta do outro lado da rodovia. Nas costas, uma mochila de tecido sintético e nos ouvidos um par de fones pretos que nunca deixavam de ecoar as melhores dos Paralamas, Titãs, Ultraje e Barão, ou seja, as melhores dos anos oitenta. Estava tranquilo, pois saíra cedo de casa e tinha pelo menos quinze minutos de folga para a chegada em seu posto de trabalho. Assobiava a cada passo dado, os pensamentos deslizando despreocupados sobre a noite anterior, o café da manhã recém ingerido e os planos para o restante do dia, ou boa parte dele. “Aonde quer que eu vá” começou a tocar. Com o indicador ele pressionou o botão com sinal de mais no pequeno aparelho e começou a cantarolar em voz alta. Os carros passavam ao seu lado a toda velocidade.
A caminhada já durava uns cinco minutos quando ele percebeu que a moça que seguia a sua frente atravessou a rua de maneira brusca, sem olhar os lados, como quem havia visto o diabo e precisasse escapar a todo custo. Quando viu aquilo a considerou louca e riu com desleixo. A displicência da moça rendeu além de um quase atropelamento, uma bela buzinada e um xingamento baixo e sujo do motorista.
Passou a chutar as pequenas pedras do chão enquanto cantarolava o refrão: “aonde quer que eu vá, levo você no olhar, aonde quer que eu vá...”. Viu uma folha de papel preto dobrada adiante, recolheu-a do chão e quando a desdobrou viu que era um flyer, de uma bela festa que aconteceria no próximo sábado. Pelo endereço, seria perto do centro da cidade, um pouco distante dali, mas com a presença de duas novas e boas bandas de rock que ele ouvira naquela semana. Dobrou o papel e o pôs com cuidado no bolso direito.
Aquela era a pior sensação que já sentira em sua vida. Quem eram aqueles caras? Quem eram eles para levar seu relógio sem mais nem menos. Eles não faziam idéia de que aquele relógio, simples que fosse, era um presente, um dos únicos presentes dados por seu pai. Seus pensamentos agora estavam turvos, as mãos tremiam e aquela sensação só poderia se chamar revolta. Queria correr, alcançá-los e pegar seu relógio de volta, falar bem alto que ele não era irmãozinho de ninguém. Mas estava em minoria, ele era minoria e menor, e não tinha nada em sua mochila que lhe desse vantagem na briga. Milan Kundera, Borges e um Dom Casmurro não eram boas armas para o plano físico e de urgência. Teve raiva daquilo, daquela situação toda, de ter chamado a moça de louca e ser ele mesmo o idiota desatento. Chegou ao prédio da empresa rubro. A recepcionista estranhou a face sisuda e questionou se estava tudo bem. Ignorou o sentido mais profundo da pergunta falando que havia corrido para chegar até ali e precisava ir rápido ao banheiro. Deixou a mochila na mesa de vidro e entrou pelo corredor.